No dia do
costume, à hora do costume, o menino tocou à porta. Passado pouco tempo, esta
abriu-se e apareceu o senhor. O menino comprou o seu bilhete. Reparou que ao
contrário dos anteriores, que, normalmente eram brancos, este bilhete era
cinzento.
Quando entrou o menino sentiu uma leve tontura. Algo estranho se passava. Ou ele tinha encolhido ou a casa tinha aumentado. Ou se calhar as duas coisas. Percebendo isso, o senhor disse-lhe com a sua voz tranquilizadora: “Não se assuste, menino. Hoje vamos dar um passeio.”
O menino ficou logo mais animado. Passear com o senhor devia ser uma coisa muito agradável. “E onde é que vamos, onde é o passeio?”
O senhor, com o seu ar tranquilo respondeu-lhe: “Onde o menino quiser. É consigo. No entanto, estava a pensar se não gostaria de ir ali.” O senhor estava a apontar para uma salinha pequenina, escura. O menino ficou desapontado –“Oh!, então é cá em casa? Pensei que íamos dar um passeio, à rua, ver outras coisas...”. O senhor disse-lhe que havia tempo para tudo e convidou-o a entrar na pequena sala escura. O menino, sem saber muito bem porquê, teve medo e não quis prosseguir. Mas eis que de repente o senhor faz sair um menino de dentro da cabeça do primeiro, e leva-o pela mão até à porta, indicando-lhe a entrada – “Não tenha medo, entre.”
Dentro do quarto, e apesar da semiobscuridade, o menino conseguiu distinguir muitos objectos. Havia fotografias suas, de quando era pequenino, que estranhamente se desfaziam quando olhava para elas. Havia muitos brinquedos com a indicação “Não tocar. Não brincar. Não desejar”. No meio do quarto um menino igual a ele, só que muito mais novo, olhava para os brinquedos, muito quietinho. Num canto, deitada na cama, a mamã sofria. Um cuidadoso jogo de espelhos fazia com que, fosse qual fosse o sítio para onde o menino olhasse, a imagem da mamã o vigiasse. Mas era desnecessário porque o menino nunca se portava mal. Apesar disso, a mamã ralhava-lhe, e ele, mesmo sem perceber porquê, agradecia-lhe reconhecido, “Thanks mummy”. E até acreditava que o gostar era de alguém era isto. Tanto assim que nunca pôs a razão da mamã em causa. O menino era um grande filho da mamã.
Fora do quarto, o senhor propôs ao menino fazer uma festa com os seus amigos. O menino ficou muito atrapalhado pois não estava habituado a brincar com os outros meninos. E quando o senhor perguntou como é que ele fazia, ele respondeu que tinha inventado a brincadeira do faz de conta, isto é, faz de conta que eles estão lá mas não estão. E concluiu, triunfante – “Assim não preciso de ninguém! E mais, nunca me desiludo com eles”
O senhor pensou um pouco, e perguntou ao menino, o que é que os seus amigos diziam dele. “Dizem bem”, respondeu. “E gostam de si?”. “Sim, gostam muito”, respondeu o menino. Então o senhor perguntou porque é que os outros meninos se iam todos embora e não voltavam. E como o nosso menino não soube responder, o senhor, num novo golpe de magia, fez sair outro menino de dentro dele, desta vez do coração.
Mas este novo menino tinha medo de tudo, escondia-se de tudo e foi uma trabalheira para o conseguir levar para a festa com os seus amigos. Estava sempre calado, envergonhado e quando tentavam brincar com ele, zangava-se. E não brincava e não gostava que os outros brincassem. E quando os amigos se cansavam e iam embora, mais zangado e triste ficava. E quando percebeu que os outros meninos se divertiam muito mesmo sem estarem com ele, ficou tão triste e zangado que começou a encolher, como um balão a perder ar. Vendo aquilo, o nosso menino começou a tentar animar a situação, dizendo que não valia a pena ficar triste, pois eles haviam de se arrepender e voltar. Mas o outro continuava a encolher. Então o nosso menino resolveu dizer piadas. Mas ninguém se riu. Disse mais, mas mesmo assim, ninguém se riu. O menino ficou sem saber o que fazer, até porque o outro já estava tão pequenino que mal se via. Aquilo costumava funcionar. Pelo menos com a mamã funcionava. Se ao menos ela ali estivesse...
Quando entrou o menino sentiu uma leve tontura. Algo estranho se passava. Ou ele tinha encolhido ou a casa tinha aumentado. Ou se calhar as duas coisas. Percebendo isso, o senhor disse-lhe com a sua voz tranquilizadora: “Não se assuste, menino. Hoje vamos dar um passeio.”
O menino ficou logo mais animado. Passear com o senhor devia ser uma coisa muito agradável. “E onde é que vamos, onde é o passeio?”
O senhor, com o seu ar tranquilo respondeu-lhe: “Onde o menino quiser. É consigo. No entanto, estava a pensar se não gostaria de ir ali.” O senhor estava a apontar para uma salinha pequenina, escura. O menino ficou desapontado –“Oh!, então é cá em casa? Pensei que íamos dar um passeio, à rua, ver outras coisas...”. O senhor disse-lhe que havia tempo para tudo e convidou-o a entrar na pequena sala escura. O menino, sem saber muito bem porquê, teve medo e não quis prosseguir. Mas eis que de repente o senhor faz sair um menino de dentro da cabeça do primeiro, e leva-o pela mão até à porta, indicando-lhe a entrada – “Não tenha medo, entre.”
Dentro do quarto, e apesar da semiobscuridade, o menino conseguiu distinguir muitos objectos. Havia fotografias suas, de quando era pequenino, que estranhamente se desfaziam quando olhava para elas. Havia muitos brinquedos com a indicação “Não tocar. Não brincar. Não desejar”. No meio do quarto um menino igual a ele, só que muito mais novo, olhava para os brinquedos, muito quietinho. Num canto, deitada na cama, a mamã sofria. Um cuidadoso jogo de espelhos fazia com que, fosse qual fosse o sítio para onde o menino olhasse, a imagem da mamã o vigiasse. Mas era desnecessário porque o menino nunca se portava mal. Apesar disso, a mamã ralhava-lhe, e ele, mesmo sem perceber porquê, agradecia-lhe reconhecido, “Thanks mummy”. E até acreditava que o gostar era de alguém era isto. Tanto assim que nunca pôs a razão da mamã em causa. O menino era um grande filho da mamã.
Fora do quarto, o senhor propôs ao menino fazer uma festa com os seus amigos. O menino ficou muito atrapalhado pois não estava habituado a brincar com os outros meninos. E quando o senhor perguntou como é que ele fazia, ele respondeu que tinha inventado a brincadeira do faz de conta, isto é, faz de conta que eles estão lá mas não estão. E concluiu, triunfante – “Assim não preciso de ninguém! E mais, nunca me desiludo com eles”
O senhor pensou um pouco, e perguntou ao menino, o que é que os seus amigos diziam dele. “Dizem bem”, respondeu. “E gostam de si?”. “Sim, gostam muito”, respondeu o menino. Então o senhor perguntou porque é que os outros meninos se iam todos embora e não voltavam. E como o nosso menino não soube responder, o senhor, num novo golpe de magia, fez sair outro menino de dentro dele, desta vez do coração.
Mas este novo menino tinha medo de tudo, escondia-se de tudo e foi uma trabalheira para o conseguir levar para a festa com os seus amigos. Estava sempre calado, envergonhado e quando tentavam brincar com ele, zangava-se. E não brincava e não gostava que os outros brincassem. E quando os amigos se cansavam e iam embora, mais zangado e triste ficava. E quando percebeu que os outros meninos se divertiam muito mesmo sem estarem com ele, ficou tão triste e zangado que começou a encolher, como um balão a perder ar. Vendo aquilo, o nosso menino começou a tentar animar a situação, dizendo que não valia a pena ficar triste, pois eles haviam de se arrepender e voltar. Mas o outro continuava a encolher. Então o nosso menino resolveu dizer piadas. Mas ninguém se riu. Disse mais, mas mesmo assim, ninguém se riu. O menino ficou sem saber o que fazer, até porque o outro já estava tão pequenino que mal se via. Aquilo costumava funcionar. Pelo menos com a mamã funcionava. Se ao menos ela ali estivesse...
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