domingo, 15 de julho de 2012

Sonho de Uma Noite de Verão (II)



O menino não suportava estar ou ver ninguém triste, e como estava ele próprio a entristecer-se, e as graçolas não pareciam resultar, teve então uma ideia. Uma ideia animada e que o deixava sempre contente.
Perguntou ao senhor se queria ir com ele de férias. “Vamos sempre para um sítio muito longe, fazemos uma grande viagem e é muito divertido. Saímos de casa, atravessamos uma grande ponte e sentimos logo que é o caminho das férias. Venha!”. O senhor, após reflectir um pouco, respondeu ao menino que lhe faria companhia, mas este ano as coisas seriam diferentes.
Foram até à ponte que o menino tinha indicado, e aí, desceram até às águas, entrando num pequeno bote que ali estava preso. “Este ano vai ter que ser assim”, explicou. E dizendo isto, o senhor entrou para dentro do menino, que se sentiu logo mais forte, e começou a remar, a remar...
Ao final do dia, o menino estava cansado. Avistaram uma praia onde várias crianças brincavam, e ele quis logo ir ter com elas O senhor saiu de dentro dele e disse-lhe para procurar um porto seguro para atracar. O menino assim fez, mas para seu grande espanto, quando o ia a fazer, afundou-se. Muito aflito, tentou procurar algo a que se agarrar mas não encontrou nada. Tentou nadar para a praia mas as forças faltaram-lhe, e foi descendo, cada vez mais fundo, até tocar no fundo do mar. A sua mamã é que tinha razão, nunca se devia sair de casa ou correr riscos. Estava nesta situação por sua única culpa. A mamã é que sabia.
Quando o menino tocou no fundo do mar, este abriu-se e sem saber como, o menino deu por si a cair suavemente até aterrar num grande relvado, onde aproveitou para se secar ao sol. Ao seu lado, como sempre, estava o senhor, que estranhamente, estava completamente seco. E vendo o seu ar entristecido, pela aventura por que tinham passado, resolveu consolá-lo: “E que tal vermos uns filmes” – perguntou. O menino ficou logo mais contente -”Quero, quero. Onde é o cinema?”
“Aqui mesmo” – respondeu o senhor, apontando para aquele grande relvado. “Este ano até parece que escolheram os filmes a pensar em si”, acrescentou piscando-lhe o olho. “Começamos com Uma Separação, - está a ver, e caso o menino não perceba o filme ou fique com dúvidas, a seguir vem o Sherlock Holmes para resolver os mistérios. Depois, é só esperar que a Amélie encontre o seu Artista para ter um destino fabuloso. E se o menino se sentir Entre Inimigos pode sempre mascarar-se de Rango. Afinal para quê crescer?” O menino não percebia se ele estava a falar a sério ou a brincar com ele. Apesar da companhia do senhor um grande mal-estar apoderou-se dele. Disse-lhe: “Quero sair daqui! Este passeio não está a ser muito divertido”.
O senhor disse então ao menino que o passeio tinha terminado. Como por magia, estava novamente em casa do senhor. Aliviado, o menino despediu-se dele, prometendo voltar na semana seguinte, como de costume. Depois dirigiu-se para a porta da rua, e quando a abriu, ficou muito surpreendido, porque, do outro lado, viu-se a si próprio, com um bilhete branco na mão.
Depois deixou de perceber o que se passava, de saber quem era ou onde estava, e de que cor era o bilhete que tinha na mão.
Então acordou, e aliviado, percebeu que tudo não tinha passado de um sonho mau, e que tudo podia continuar a ser como dantes.
E algumas horas mais tarde, percebeu que não, quando a sua mamã o acordou a dizer-lhe que tinha uma sopinha e uns bifinhos para o almoço.
Respondeu, sentindo-se invadido pelo ódio, pela tristeza, pelo vazio, pelo infinito vazio: “THANKS MUMMY!”
O nosso menino percebeu que tinha chegado a hora. A vida podia ser a cores.
E, então, finalmente, o nosso menino fez-se à vida.

1 comentário:

  1. Como dizia Jaromil para a rapariga:

    "O verdadeiro amor é absolutamente surdo perante o que o resto do mundo possa dizer, é justamente por isso que o podemos reconhecer. Só que tu estás sempre disposta a dar ouvidos ao que as pessoas te dizem, toda tu és atenções para com os outros, tantas atenções para os outros que passas por cima de mim."

    (Milan Kundera, "A Vida Não é Aqui")

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