segunda-feira, 16 de julho de 2012

A Intimidade - Visões de Autor(es)


Segundo o terapeuta de casal José Gameiro, a intimidade é visível quando, entre (felizmente) outras coisas, "...um casal consegue partilhar os puns um do outro, ou pelo menos, não fica muito atrapalhado com isso". O que Gameiro pretende introduzir é esta dimensão do quotidiano, esta grandeza das pequenas coisas que se definem e peercebem num espaço cúmplice de duas pessoas. Nem que seja à bas de puns...

Fala-se também muito, em relação à intimidade, na coincidência de gostos, na sua complementaridade ou, em alternativa, na suposta atracção dos opostos, como base do amor e, desde logo, da intimidade daí resultante. Em relação a esta última, a atracção dos opostos, não creio que assim seja. A este propósito, Vera Brittain, no seu livro Testament of Youth, diz: "Conheço um casal que, quaisquer que tenham sido as razões invocadas em tribunal para a ruptura, se divorciaram efectivamente porque ele não admitia que ninguém lesse enquanto ele falava, e ela não admitia que ninguém falasse enquanto ela lia."



Mas a intimidade existe, e vai-se construindo, mesmo quando pensamos que já passámos o prazo de validade para o fazer. Leiam o que Isabel Allende diz disso, a respeito de si própria:

 "Esta sou eu, sou uma mulher, tenho um nome, chamo-me Isabel, não me estou a transformar em fumo, não desapareci. Observo-me no espelho de prata da minha avó: aquela pessoa de olhos desolados sou eu, vivi já quase meio século, a minha filha está a morrer, e no entanto ainda quero fazer amor. Penso na sólida presença de Willie, sinto a pele a eriçar-se-me e não posso deixar de sorrir em face do poder abissal do desejo, que me estremece mau grado a tristeza, e é capaz de fazer retroceder a morte. Fecho por instantes os olhos e lembro com nitidez a primeira vez que dormimos juntos, o primeiro beijo, o primeiro abraço, a descoberta assombrosa de um amor surgido quando menos o procurávamos, a ternura que nos tomou de assalto quando nos julgávamos a salvo numa aventura de uma só noite, da profunda intimidade criada desde o início, como se durante as nossas vidas inteiras nos tivéssemos preparado para esse encontro, a facilidade, a calma e a confiança com que nos amámos, como as de um velho casal que partilhou mil e uma noites. E todas as vezes depois de satisfeita a paixão e renovado o amor, dormimos muito juntinhos sem querer saber onde começa um e acaba o outro, nem de quem são estas mãos ou estes pés, numa tão perfeita cumplicidade que nos encontramos nos sonhos e no dia seguinte não sabemos quem sonhou com quem, e quando nos movemos entre os lençóis o outro preenche os ângulos e as curvas, e quando um suspira o outro suspira, e quando um acorda o outro acorda também".  (Isabel Allende,  "Paula").


5 comentários:

  1. A intimidade não se explica, não se descreve, não se ensina. Vai-se aprendendo. Como receita é inexplicável, faz-se de pequenos quotidianos partilhados, dos restos do dia, que, se bem trabalhados, dão origem a uma preparação gourmet. Mas atenção: se não têm cuidados com ela, pode começar a azedar, e deixar de saber bem.

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  2. A intimidade só existe de verdade quando há amor puro e verdadeiro.
    Imporem-nos a intimidade quando não estamos para aí viradas, é fazer figura de urso...isto para não sair fora do contexto do blog.
    Já fui ursa, já vi fazerem figuras de urso e a conclusão a que chego é que os únicos pelos de urso que encontro, todas as manhãs no meu lavatório, são os meus...

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  3. Professor, porque não põe aqui a definição de intimidade que nos deu nas aulas de sexualidade: a intimidade é quando duas pessoas conseguem mexer uma dentro da outra só com o olhar e perceber de olhos fechados o que lá vêem (acho que era mais ou menos assim :-)
    Um beijinho

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  4. envelhecemos construindo uma intimidade que queremos enriquecer, preservar até que a memória nos confunda. Ao mesmo tempo os nossos sentidos perdem acuidade, os cheiros atenuam-se, os ruídos esbatem-se...só por isso os puns a dois podem parecer cumplicidade!!

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  5. Por vezes a intimidade refere-se a um unico encontro que permanece misteriosamente no tempo. Sente-se carinho e atracção. Basta um pormenor, um instante que o torna inesquecível. Nestes casos existe também a dramática renuncia. Mas se calhar não é intimidade...ou é ?

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