Pela primeira vez no Urso em Amores, uma contribuição externa. É dos textos mais tocantes que já li. Espero que apreciem.
"Percebe que ela não vai pedir que a leves a passear porque está á espera que o faças de livre vontade.
Ela diz-te que não liga muito a flores? Bem, na verdade o que ela quer
dizer é que as flores não são importantes para ela a não ser que sejam
dadas por ti. E espera ansiosamente para que tomes essa atitude.
Ela adora quando lhe ligas de madrugada e dizes que queres apenas ouvir a sua voz. Na verdade, ela fica completamente derretida.
Estremece cada vez que lhe dás um beijo no pescoço e sente que a respeitas cada vez que a beijas na testa.
Analisa cuidadosamente cada sinal que tens na face enquanto dormes, e
ri-se baixinho quando tens ataques de sonambulismo, para não te acordar.
Ela gosta quando cozinhas para ela, mesmo sabendo que o teu jeito para a culinária é nulo.
Também gosta de andar de mãos dadas, de abraços inesperados e
declarações repentinas. Ela quer um homem que a leve a conhecer os pais e
gosta quando se sente compreendida.
Sente-se especial quando a tratas por nomes doces e acha piada à tua maneira atrapalhada de dizeres que gostas dela.
Ela já escreveu inúmeras mensagens para ti, mas depois não teve coragem
de as enviar. Também já planeou de mil e uma maneiras a melhor forma
para dizer o que sente. Mas faltam-lhe as palavras.
Ela ainda
escolhe cuidadosamente a roupa que vai vestir no dia que está contigo, e
nesse dia acha sempre que nada lhe fica bem.
Cada vez que lhe tocas o seu coração dispara, e ainda treme antes de se encontrar contigo.
Sonha contar estrelas contigo e tem esperança que tentes realizar aquilo que deseja.
Percebe que cada vez que está com ciúmes que não te irá responder com
mais de duas palavras e vai tentar ser o mais fria possível. Entende
também que apenas uma palavra irá bastar para o seu lado carinhoso
voltar.
Sabes, ela adora o sorriso do teu olhar. Mas nunca te o disse.
Também nunca te disse o como adora o som da tua voz quando tens sono, e
nunca te vai dizer o quanto odeia que a compares a outras mulheres.
Entende que as tuas mensagens matinais são a energia dela durante o
dia, e a tua última mensagem da noite é a motivação que precisa para
mergulhar no mundo dos sonhos.
Ela não é a mulher perfeita, mas
também não quer ser. Ela também não quer que sejas o homem perfeito.
Antes pelo contrário. Ela gosta dos teus defeitos, entende isso.
As palavras que ela nunca te disse são aquelas que o seu coração ainda não está preparado para pronunciar.
Percebe que és a excepção e que a sinceridade das tuas palavras e a
doçura do teu coração é o mundo dela.
E o teu.
O vosso.
E o que
interessa o resto se o vosso mundo é tão feliz?
domingo, 18 de agosto de 2013
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Dois Croissants e uma Abelha
Minha
querida ursinha:
Ontem foi outra vez um dia muito triste para ti. Outra perda, mais uma, de quem tanta importância tinha para ti.
Perguntaste "Porquê?", e não te soube responder, já que dizer-te "Porque sim, porque a vida é assim" não chega, ainda é curto para ti, precisas de sentidos que a vida não tem.
Hoje deixo-te aqui um bocadinho da história de um livro que o pai leu e gostou muito, onde um casal, Tomás e Tereza, tinham um cão chamado Karenine.
“Karenine detestava as mudanças. Para os cães, o tempo não anda em linha recta, o curso do tempo não é um movimento contínuo sempre a direito, cada vez mais para diante, de uma coisa para a coisa seguinte. Para eles, o tempo descreve um movimento circular como o tempo dos ponteiros do relógio, porque os ponteiros também não andam sempre estupidamente a direito, mas à volta do mostrador, dia após dia, na mesma trajectória”.
“Em Praga, bastava comprarem um sofá ou mudarem uma jarra de flores de sítio para Karenine se indignar. Ficava com o sentido do tempo perturbado. Um pouco como aconteceria aos ponteiros se lhes mudássemos os números do mostrador.
Karenine era uma cão simples e de hábitos, e só exigia comer o seu croissant de manhã, na volta do passeio matinal.
Um dia Karenine morreu. Resolveram enterrá-lo no jardim do parque onde todas as manhãs ia passear.
A sua dona não podia pensar que lhe iam deitar terra por cima do corpo nú. Então foi a casa buscar a coleira, a trela e uma mão cheia de bocadinhos de chocolate, que desde a manhã tinham ficado sobre o chão, intactos. Deitou tudo para dentro da cova. Ao lado, estava um monte de terra fresca. Tereza pegou na pá, e então, lembrou-se dum sonho que tivera e no qual Karenine dava à luz dois croissants e uma abelha.
Subitamente, estas palavras pareciam-lhe um epitáfio. Pôs-se a imaginar um jazigo entre as macieiras, com a seguinte inscrição: "Aqui jaz Karenine. Deu à luz dois croissants e uma abelha".
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Deixa Acontecer
Ah, não tente explicar
Nem se desculpar
Nem tente esconder.
Se vem do coração,
Não tem jeito, não,
Deixa acontecer.
O amor é essa força incontida,
Desarruma a cama e a vida,
Nos fere, maltrata e seduz.
É feito uma estrela cadente
Que risca o caminho da gente,
Nos enche de Força e de luz.
Vai debochar da dor
Sem nenhum pudor
Nem medo qualquer.
Ah, sendo por amor,
Seja como for
E o que Deus quiser.
(Toquinho)
Nem se desculpar
Nem tente esconder.
Se vem do coração,
Não tem jeito, não,
Deixa acontecer.
O amor é essa força incontida,
Desarruma a cama e a vida,
Nos fere, maltrata e seduz.
É feito uma estrela cadente
Que risca o caminho da gente,
Nos enche de Força e de luz.
Vai debochar da dor
Sem nenhum pudor
Nem medo qualquer.
Ah, sendo por amor,
Seja como for
E o que Deus quiser.
(Toquinho)
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Há
Há principios e valores,
Há ternuras e carinhos,
Há sonhos e há amores,
Que sempre irão abrir caminhos.
Há olhares e lembranças,
Há poemas e há poetas,
Há temores, há esperanças,
E na barriga borboletas.
E quem viver abraçado,
À vida que há ao lado,
Não vai morrer sozinho.
E quem morrer abraçado,
À vida que há ao lado,
Então não viveu sozinho.
Há ternuras e carinhos,
Há sonhos e há amores,
Que sempre irão abrir caminhos.
Há olhares e lembranças,
Há poemas e há poetas,
Há temores, há esperanças,
E na barriga borboletas.
E quem viver abraçado,
À vida que há ao lado,
Não vai morrer sozinho.
E quem morrer abraçado,
À vida que há ao lado,
Então não viveu sozinho.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Os Zombies
Há já alguns anos, costumava passar uma parte significativa
do meu tempo livre a jogar “CHAOS”, no meu então poderoso ZX Spectrum 48k.
O que tem uma coisa a ver com a outra? É que, regra geral,
quando na vida perdemos algo ou alguém, ficamos tristes. Fazemos aquilo que
chamam um processo de luto, o qual basicamente consiste em aceitar que alguém, que
fisicamente desapareceu, é reconstruído dentro de nós, seja num altar das
nossas memórias, ao qual se vai prestar um culto por vezes quase quotidiano,
seja na arrecadação da indiferença e do esquecimento, onde se vai acumulando o pó
do tempo, que convenientemente disfarça a sua presença.
Ora acontece que no tal jogo do Spectrum, quando os
personagens (que por acaso eram feiticeiros) morriam, eles na realidade não morriam,
antes tornavam-se “undead”, isto é, mortos que não estavam mortos nem podiam
morrer, aquilo que hoje, de uma forma mais prosaica, chamamos de zombies. Como
é fácil perceber, o nome do jogo adequava-se bem ao pandemónio que era ter
feiticeiros, com feitiços e poções mortais, uns contra os outros, alguns dos
quais podiam morrer, outros não, uns já estavam mortos, outros não, enfim, um
verdadeiro CHAOS.
Lembrei-me disto tudo, porque afinal percebi que existem
muitos mais zombies do que nós pensamos. Já tive, como provavelmente todos os
que me lêem, de lidar com algumas situações relativas às pessoas de quem gostava
e que, por esta ou aquela razão, desta ou daquela forma, acabaram por morrer. Enquanto algumas o fizeram da forma tradicional, definitiva, outras houve que evoluíram para zombies, os quais, deixem-me que vos diga, deixam muito a desejar no respeitante às boas regras de comportamento.
Isto porque, se em relação aos que nos deixaram da tal forma tradicional e definitiva, o luto segue o seu curso natural, já pensaram como é que se faz o luto de alguém que volta não volta se cruza connosco num restaurante, num cinema ou noutro lugar qualquer, regra geral a exibir de forma despudorada a sua boa disposição e gosto pela vida?
Como se lida com um zombie, com alguém que para nós está morto (embora na realidade seja o contrário...), mas que não faz o favor de morrer de vez, quanto mais não fosse por uma questão de bom gosto e consideração por nós?
Se alguém souber a receita, agradecia.
Isto porque, se em relação aos que nos deixaram da tal forma tradicional e definitiva, o luto segue o seu curso natural, já pensaram como é que se faz o luto de alguém que volta não volta se cruza connosco num restaurante, num cinema ou noutro lugar qualquer, regra geral a exibir de forma despudorada a sua boa disposição e gosto pela vida?
Como se lida com um zombie, com alguém que para nós está morto (embora na realidade seja o contrário...), mas que não faz o favor de morrer de vez, quanto mais não fosse por uma questão de bom gosto e consideração por nós?
Se alguém souber a receita, agradecia.
segunda-feira, 16 de julho de 2012
A Intimidade - Visões de Autor(es)
Segundo o terapeuta de casal José Gameiro, a intimidade é visível quando, entre (felizmente) outras coisas, "...um casal consegue partilhar os puns um do outro, ou pelo menos, não fica muito atrapalhado com isso". O que Gameiro pretende introduzir é esta dimensão do quotidiano, esta grandeza das pequenas coisas que se definem e peercebem num espaço cúmplice de duas pessoas. Nem que seja à bas de puns...
Fala-se também muito, em relação à intimidade, na coincidência de gostos, na sua complementaridade ou, em alternativa, na suposta atracção dos opostos, como base do amor e, desde logo, da intimidade daí resultante. Em relação a esta última, a atracção dos opostos, não creio que assim seja. A este propósito, Vera Brittain, no seu livro Testament of Youth, diz: "Conheço um casal que, quaisquer que tenham sido as razões invocadas em tribunal para a ruptura, se divorciaram efectivamente porque ele não admitia que ninguém lesse enquanto ele falava, e ela não admitia que ninguém falasse enquanto ela lia."
Mas a intimidade existe, e vai-se construindo, mesmo quando pensamos que já passámos o prazo de validade para o fazer. Leiam o que Isabel Allende diz disso, a respeito de si própria:
"Esta sou eu, sou uma mulher, tenho um nome, chamo-me Isabel, não me estou a transformar em fumo, não desapareci. Observo-me no espelho de prata da minha avó: aquela pessoa de olhos desolados sou eu, vivi já quase meio século, a minha filha está a morrer, e no entanto ainda quero fazer amor. Penso na sólida presença de Willie, sinto a pele a eriçar-se-me e não posso deixar de sorrir em face do poder abissal do desejo, que me estremece mau grado a tristeza, e é capaz de fazer retroceder a morte. Fecho por instantes os olhos e lembro com nitidez a primeira vez que dormimos juntos, o primeiro beijo, o primeiro abraço, a descoberta assombrosa de um amor surgido quando menos o procurávamos, a ternura que nos tomou de assalto quando nos julgávamos a salvo numa aventura de uma só noite, da profunda intimidade criada desde o início, como se durante as nossas vidas inteiras nos tivéssemos preparado para esse encontro, a facilidade, a calma e a confiança com que nos amámos, como as de um velho casal que partilhou mil e uma noites. E todas as vezes depois de satisfeita a paixão e renovado o amor, dormimos muito juntinhos sem querer saber onde começa um e acaba o outro, nem de quem são estas mãos ou estes pés, numa tão perfeita cumplicidade que nos encontramos nos sonhos e no dia seguinte não sabemos quem sonhou com quem, e quando nos movemos entre os lençóis o outro preenche os ângulos e as curvas, e quando um suspira o outro suspira, e quando um acorda o outro acorda também". (Isabel Allende, "Paula").
domingo, 15 de julho de 2012
Sonho de Uma Noite de Verão (I)
No dia do
costume, à hora do costume, o menino tocou à porta. Passado pouco tempo, esta
abriu-se e apareceu o senhor. O menino comprou o seu bilhete. Reparou que ao
contrário dos anteriores, que, normalmente eram brancos, este bilhete era
cinzento.
Quando entrou o menino sentiu uma leve tontura. Algo estranho se passava. Ou ele tinha encolhido ou a casa tinha aumentado. Ou se calhar as duas coisas. Percebendo isso, o senhor disse-lhe com a sua voz tranquilizadora: “Não se assuste, menino. Hoje vamos dar um passeio.”
O menino ficou logo mais animado. Passear com o senhor devia ser uma coisa muito agradável. “E onde é que vamos, onde é o passeio?”
O senhor, com o seu ar tranquilo respondeu-lhe: “Onde o menino quiser. É consigo. No entanto, estava a pensar se não gostaria de ir ali.” O senhor estava a apontar para uma salinha pequenina, escura. O menino ficou desapontado –“Oh!, então é cá em casa? Pensei que íamos dar um passeio, à rua, ver outras coisas...”. O senhor disse-lhe que havia tempo para tudo e convidou-o a entrar na pequena sala escura. O menino, sem saber muito bem porquê, teve medo e não quis prosseguir. Mas eis que de repente o senhor faz sair um menino de dentro da cabeça do primeiro, e leva-o pela mão até à porta, indicando-lhe a entrada – “Não tenha medo, entre.”
Dentro do quarto, e apesar da semiobscuridade, o menino conseguiu distinguir muitos objectos. Havia fotografias suas, de quando era pequenino, que estranhamente se desfaziam quando olhava para elas. Havia muitos brinquedos com a indicação “Não tocar. Não brincar. Não desejar”. No meio do quarto um menino igual a ele, só que muito mais novo, olhava para os brinquedos, muito quietinho. Num canto, deitada na cama, a mamã sofria. Um cuidadoso jogo de espelhos fazia com que, fosse qual fosse o sítio para onde o menino olhasse, a imagem da mamã o vigiasse. Mas era desnecessário porque o menino nunca se portava mal. Apesar disso, a mamã ralhava-lhe, e ele, mesmo sem perceber porquê, agradecia-lhe reconhecido, “Thanks mummy”. E até acreditava que o gostar era de alguém era isto. Tanto assim que nunca pôs a razão da mamã em causa. O menino era um grande filho da mamã.
Fora do quarto, o senhor propôs ao menino fazer uma festa com os seus amigos. O menino ficou muito atrapalhado pois não estava habituado a brincar com os outros meninos. E quando o senhor perguntou como é que ele fazia, ele respondeu que tinha inventado a brincadeira do faz de conta, isto é, faz de conta que eles estão lá mas não estão. E concluiu, triunfante – “Assim não preciso de ninguém! E mais, nunca me desiludo com eles”
O senhor pensou um pouco, e perguntou ao menino, o que é que os seus amigos diziam dele. “Dizem bem”, respondeu. “E gostam de si?”. “Sim, gostam muito”, respondeu o menino. Então o senhor perguntou porque é que os outros meninos se iam todos embora e não voltavam. E como o nosso menino não soube responder, o senhor, num novo golpe de magia, fez sair outro menino de dentro dele, desta vez do coração.
Mas este novo menino tinha medo de tudo, escondia-se de tudo e foi uma trabalheira para o conseguir levar para a festa com os seus amigos. Estava sempre calado, envergonhado e quando tentavam brincar com ele, zangava-se. E não brincava e não gostava que os outros brincassem. E quando os amigos se cansavam e iam embora, mais zangado e triste ficava. E quando percebeu que os outros meninos se divertiam muito mesmo sem estarem com ele, ficou tão triste e zangado que começou a encolher, como um balão a perder ar. Vendo aquilo, o nosso menino começou a tentar animar a situação, dizendo que não valia a pena ficar triste, pois eles haviam de se arrepender e voltar. Mas o outro continuava a encolher. Então o nosso menino resolveu dizer piadas. Mas ninguém se riu. Disse mais, mas mesmo assim, ninguém se riu. O menino ficou sem saber o que fazer, até porque o outro já estava tão pequenino que mal se via. Aquilo costumava funcionar. Pelo menos com a mamã funcionava. Se ao menos ela ali estivesse...
Quando entrou o menino sentiu uma leve tontura. Algo estranho se passava. Ou ele tinha encolhido ou a casa tinha aumentado. Ou se calhar as duas coisas. Percebendo isso, o senhor disse-lhe com a sua voz tranquilizadora: “Não se assuste, menino. Hoje vamos dar um passeio.”
O menino ficou logo mais animado. Passear com o senhor devia ser uma coisa muito agradável. “E onde é que vamos, onde é o passeio?”
O senhor, com o seu ar tranquilo respondeu-lhe: “Onde o menino quiser. É consigo. No entanto, estava a pensar se não gostaria de ir ali.” O senhor estava a apontar para uma salinha pequenina, escura. O menino ficou desapontado –“Oh!, então é cá em casa? Pensei que íamos dar um passeio, à rua, ver outras coisas...”. O senhor disse-lhe que havia tempo para tudo e convidou-o a entrar na pequena sala escura. O menino, sem saber muito bem porquê, teve medo e não quis prosseguir. Mas eis que de repente o senhor faz sair um menino de dentro da cabeça do primeiro, e leva-o pela mão até à porta, indicando-lhe a entrada – “Não tenha medo, entre.”
Dentro do quarto, e apesar da semiobscuridade, o menino conseguiu distinguir muitos objectos. Havia fotografias suas, de quando era pequenino, que estranhamente se desfaziam quando olhava para elas. Havia muitos brinquedos com a indicação “Não tocar. Não brincar. Não desejar”. No meio do quarto um menino igual a ele, só que muito mais novo, olhava para os brinquedos, muito quietinho. Num canto, deitada na cama, a mamã sofria. Um cuidadoso jogo de espelhos fazia com que, fosse qual fosse o sítio para onde o menino olhasse, a imagem da mamã o vigiasse. Mas era desnecessário porque o menino nunca se portava mal. Apesar disso, a mamã ralhava-lhe, e ele, mesmo sem perceber porquê, agradecia-lhe reconhecido, “Thanks mummy”. E até acreditava que o gostar era de alguém era isto. Tanto assim que nunca pôs a razão da mamã em causa. O menino era um grande filho da mamã.
Fora do quarto, o senhor propôs ao menino fazer uma festa com os seus amigos. O menino ficou muito atrapalhado pois não estava habituado a brincar com os outros meninos. E quando o senhor perguntou como é que ele fazia, ele respondeu que tinha inventado a brincadeira do faz de conta, isto é, faz de conta que eles estão lá mas não estão. E concluiu, triunfante – “Assim não preciso de ninguém! E mais, nunca me desiludo com eles”
O senhor pensou um pouco, e perguntou ao menino, o que é que os seus amigos diziam dele. “Dizem bem”, respondeu. “E gostam de si?”. “Sim, gostam muito”, respondeu o menino. Então o senhor perguntou porque é que os outros meninos se iam todos embora e não voltavam. E como o nosso menino não soube responder, o senhor, num novo golpe de magia, fez sair outro menino de dentro dele, desta vez do coração.
Mas este novo menino tinha medo de tudo, escondia-se de tudo e foi uma trabalheira para o conseguir levar para a festa com os seus amigos. Estava sempre calado, envergonhado e quando tentavam brincar com ele, zangava-se. E não brincava e não gostava que os outros brincassem. E quando os amigos se cansavam e iam embora, mais zangado e triste ficava. E quando percebeu que os outros meninos se divertiam muito mesmo sem estarem com ele, ficou tão triste e zangado que começou a encolher, como um balão a perder ar. Vendo aquilo, o nosso menino começou a tentar animar a situação, dizendo que não valia a pena ficar triste, pois eles haviam de se arrepender e voltar. Mas o outro continuava a encolher. Então o nosso menino resolveu dizer piadas. Mas ninguém se riu. Disse mais, mas mesmo assim, ninguém se riu. O menino ficou sem saber o que fazer, até porque o outro já estava tão pequenino que mal se via. Aquilo costumava funcionar. Pelo menos com a mamã funcionava. Se ao menos ela ali estivesse...
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